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Velho ou idoso? A luta contra o preconceito etário

Velho ou idoso? Ainda não chegou ao fim a disputa pelas palavras e seus sentidos, quando o tema é o processo de envelhecimento que, a rigor, começa desde que a gente nasce. A dificuldade para pacificar os termos e escolher a palavra certa talvez reflita, como acontece em outros grupos e minorias sociais, a enorme carga de preconceito, desatenção e discriminação que resiste ainda em relação àqueles que já não são mais jovens.

Em mensagem para o Dia Internacional das Pessoas Idosas, que se comemora hoje, dia 1º de outubro, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu o fim do preconceito etário, enquanto o diretor-executivo do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), Babatunde Osotimehin, defendeu a redução das desigualdades ao longo da vida para melhorar as condições dessas pessoas quando chegam à terceira idade.

“O Dia Internacional das Pessoas Idosas é nossa chance de nos posicionarmos contra o problema destrutivo do preconceito etário”, disse Ban. “Enquanto se diz que as pessoas idosas são particularmente respeitadas, a realidade mostra que muitas sociedades criam barreiras para elas, negando acesso a empregos, empréstimos e serviços básicos.” Este ano, por isso, o tema da data é “tome uma posição sobre a discriminação por idade”.

Segundo o chefe da ONU, a marginalização e a desvalorização das pessoas idosas provocam profundos estragos nas sociedades, minando sua produtividade, restringindo a capacidade dessas pessoas de apoiar financeiramente suas famílias e comunidades. “O preconceito de idade frequentemente interage com outras formas de discriminação baseada em gênero, raça, deficiência e outras, misturando e intensificando seus efeitos”, declarou. Ou seja, junto ao racismo, ao sexismo, à homofobia, as sociedades enfrentam também o “ageism”, expressão derivada da palavra inglesa age, que significa idade.

Ban Ki-moon pediu medidas efetivas de combate à violação dos direitos humanos de pessoas idosas, e uma “mudança na forma como os idosos são representados e percebidos” na sociedade. “É necessário que deixem de ser vistos como um fardo para serem apreciados por muitas contribuições positivas que dão para nossa família humana”. Na avaliação dele, “mais garantias legais” são importantes “para evitar que o preconceito etário resulte em políticas, leis e tratamento discriminatórios”.

A preocupação procede. A ONU também divulgou novo estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS), que indica serem generalizadas as atitudes negativas ou discriminatórias contra os idosos. A pesquisa “World Values Survey” ouviu mais de 83 mil pessoas, em 57 países, avaliando as atitudes em relação aos mais velhos, em todas as faixas etárias. E 60% dos entrevistados relataram que pessoas idosas não são respeitadas. Os mais baixos níveis de respeito foram relatados em países de alta renda.

“Esta análise confirma que a discriminação por idade é extremamente comum. No entanto, a maioria das pessoas desconhece completamente os estereótipos subconscientes que elas têm sobre pessoas idosas”, afirma John Beard, diretor de Envelhecimento e Curso de Vida. “Assim como acontece com o sexismo e o racismo, é possível mudar as normas sociais. É tempo de parar de definir as pessoas por sua idade. Isso resultará em sociedades mais prósperas, equitativas e saudáveis”. Saudáveis em todos os sentidos. Segundo o estudo, as atitudes discriminatórias afetam negativamente a saúde física e mental dos idosos, aumentando o risco de depressão e isolamento social.

A pesquisa ressalta que, embora não exista um idoso típico, a sociedade em geral vê e representa os mais velhos de formas estereotipadas, o que conduz à discriminação de indivíduos e grupos apenas com base na idade. O ageism. Um dos aspectos desse preconceito é considerar os velhos dependentes ou um fardo, entendimento que leva à falsa percepção de que as políticas que envolvam investimentos ou gastos com essa população drenam a economia, enfatizando, ao contrário, redução de custos.

“A sociedade se beneficiará desse envelhecimento da população se todos nós envelhecermos de uma forma mais saudável”, disse Alana Officer, coordenadora de Envelhecimento e Curso de Vida da OMS. Ela diz que a discriminação por idade assume muitas formas. Entre elas, “retratar pessoas mais velhas como frágeis, dependentes e fora de contato na mídia, ou por meio de práticas discriminatórias como racionamento dos cuidados de saúde por idade ou em políticas institucionais, como a aposentadoria obrigatória em certa idade”.

Em maio de 2016, a Assembleia Mundial da Saúde solicitou que a Diretoria-Geral da OMS desenvolvesse uma campanha global para combater a discriminação por idade e implementasse uma estratégia global e um plano sobre envelhecimento e saúde. Ao reconhecer e expor os impactos desse preconceito, espera-se que as sociedades possam dar voz aos principais protagonistas dessa realidade. Para que eles mesmos escolham, por exemplo, se preferem ser chamados de velhos ou de idosos – termo originário da França, que buscou, muitas vezes sem sucesso, dar maior dignidade ao tratamento conferido às pessoas com mais de 60, 65 anos, de acordo com os marcos de cada país. Institucionalizou-se no Estatuto do Idoso, de 2003, que trouxe ganhos para os mais velhos. Mas não empoderou a palavra.

Palavras

No dicionário on-line de inglês Michaellis, a primeira definição para o adjetivo old é… velho. Apenas em segundo lugar vem “de idade, idoso”. Ou seja, parece que o dramaturgo e poeta William Shakespeare quis mesmo dizer ao rei Lear, personagem que dá nome à peça, que: “não devias ter ficado velho antes de ter ficado sábio”. Em ““Ôrra, meu”, a cantora e compositora Rita Lee cantou a plenos pulmões rebeldes: ‘Estou ficando velho!” E quem gritava ai, meu deus, que se acabava tudo, nas noites que se danava? Era a velha a fiar. Não por acaso a obra-prima de Ernest Hemingway se chama “O velho e o mar”.

“Roubaram a velhice”, escreveu a escritora e documentarista Eliane Brun, em 2012, na sua coluna publicada na revista Época. No texto, intitulado “Me chamem de velha”, a autora, que chegou aos 50 neste ano de 2016, criticava o uso do termo ‘idoso’, na sua opinião um eufemismo entre outros adotados pela sociedade para escamotear o fato marcante de que vamos morrer. E a percepção de que, a partir de uma certa idade, esse destino democrático se torna gradualmente mais presente na vida. Embora nunca deixasse de realmente ali estar.

“Se testemunhamos uma epidemia de cirurgias plásticas na tentativa da juventude para sempre (até a morte), é óbvio esperar que a língua seja atingida pela mesma ânsia”, escreveu.” Acho que “idoso” é uma palavra “fotoshopada” – ou talvez um lifting completo na palavra “velho”. E saio aqui em defesa do “velho” – a palavra e o ser/estar de um tempo que, se tivermos sorte, chegará para todos.”

Para a escritora, o termo idoso acabaria por atenuar e enfraquecer a força própria conferida pela idade. “Envelhecer o espírito é engrandecê-lo. Alargá-lo com experiências. Apalpar o tamanho cada vez maior do que não sabemos. Só somos sábios na juventude. Como disse Oscar Wilde, “não sou jovem o suficiente para saber tudo”, escreveu.

Aliás, o verbo para velho é envelhecer. E o conceito que prega a atenção aos cuidados com os efeitos do passar do tempo na qualidade de vida das pessoas tem sido chamado de “envelhecimento ativo”. O escritor Guimarães Rosa desentranhou ainda outro verbo da palavra, no conto “Fita verde no cabelo”, no qual “os velhos velhavam”, sentados à beira da estrada, em uma pequena cidade do sertão. Fato é que, velho ou idoso, tudo indica que o problema não é a palavra. Mas a cabeça das pessoas, seus preconceitos e seus medos.

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