O silêncio sobre dinheiro pode comprometer os planos do casal justamente na fase em que eles esperam aproveitar mais a vida juntos.
Embora as finanças estejam entre os principais fatores de conflito nos relacionamentos, o planejamento de longo prazo ainda aparece pouco nas conversas dos casais brasileiros. Segundo levantamento da CNDL e do SPC Brasil, 66% dos casais afirmam não conversar sobre dinheiro, enquanto 21% só abordam o assunto quando enfrentam dificuldades financeiras.
O cenário preocupa ainda mais quando envolve a aposentadoria. Uma pesquisa da Serasa e Opinion Box mostra que 60% dos brasileiros começam a se planejar para essa fase apenas cinco anos antes de deixar o mercado de trabalho.
“A aposentadoria, na maioria das vezes, ainda é tratada como um projeto individual, quando ela impacta toda a dinâmica familiar”, afirma Marcos Ferreira.
Para Marcos Eduardo Ferreira, especialista em longevidade, pós-carreira e mercado securitário, a falta de diálogo sobre o futuro financeiro pode comprometer a qualidade de vida na aposentadoria e os projetos construídos ao longo da vida a dois.
“Os casais costumam conversar sobre a compra da casa, a educação dos filhos e as próximas viagens, mas raramente discutem como vão financiar os 20 ou 30 anos que poderão viver juntos após o fim do ciclo profissional”, afirma Marcos.

O benefício pode não acompanhar o padrão de vida
De acordo com Gabriel Barros, especialista contábil e diretor da SF Barros Contabilidade, muitos casais concentram o planejamento na formação de patrimônio, mas deixam de analisar a previdência.
Após a Reforma da Previdência, a aposentadoria passou a considerar 100% da média dos salários de contribuição, sem o descarte das menores contribuições. Segundo Barros, essa regra pode reduzir o valor do benefício para quem teve períodos de baixa remuneração ou recolhimentos irregulares.
O especialista orienta que os casais façam simulações periódicas e acompanhem o Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS) para evitar distorções na renda projetada para a aposentadoria.
O desafio aumenta com a longevidade. Com os brasileiros vivendo mais, o pós-carreira pode durar décadas e exigir uma mudança na forma como o patrimônio e as finanças são organizados.
“Planejar a aposentadoria hoje significa garantir condições para manter um estilo de vida ativo, saudável e financeiramente sustentável por muitos anos. As pessoas vivem mais, continuam consumindo, desenvolvem novos interesses, viajam, investem em bem-estar e precisam considerar tudo isso no planejamento”, diz Marcos.
Os erros que afastam o casal do planejamento
Entre os erros mais comuns estão a ausência de objetivos financeiros compartilhados, a concentração do planejamento em apenas um dos parceiros e a falta de uma visão de longo prazo que considere inflação, custos com saúde e aumento da expectativa de vida.
Para Marcos, a construção de patrimônio em casal deve começar muito antes da aposentadoria e incluir conversas periódicas sobre renda, investimentos e expectativas para o futuro.
“Não existe planejamento eficiente sem alinhamento. O casal precisa discutir qual padrão de vida deseja manter, quais sonhos pretende realizar e qual patrimônio e, por consequência, quais rendas serão necessários para sustentar esse projeto.”
O especialista também alerta que projetar a aposentadoria apenas com base na renda atual pode levar a erros. É preciso considerar inflação, expectativa de sobrevida e taxa de reposição previdenciária.
O benefício pago pelo INSS raramente substitui integralmente a remuneração da fase ativa, especialmente para profissionais de renda mais elevada. Por isso, muitas famílias precisam avaliar com antecedência o tempo de contribuição, as regras de transição e as projeções de benefício.
Quanto mais cedo esse diagnóstico for realizado, maiores serão as possibilidades de corrigir lacunas contributivas e organizar o patrimônio para garantir segurança financeira ao casal.
Planejamento precisa ser compartilhado
“Quanto mais cedo essa conversa acontece, maior a capacidade de adaptação e menores os riscos de surpresas no futuro”, analisa Marcos.
Marcos Eduardo Ferreira é especialista em longevidade e mercado securitário, empreendedor e investidor anjo com mais de 30 anos de experiência na MAPFRE, onde atuou como CEO no Brasil e América do Sul. Hoje assessora empreendedores e executivos em transição para o pós-carreira, promovendo a economia prateada, e é advisor da 180 Seguros. Também é cofundador do canal Homens de Prata e da Silver Hub, aceleradora voltada a produtos e serviços do público 50+. É economista e contador, com formação executiva pela IESE e FGV.
Gabriel Barros é diretor da SF Barros Contabilidade e bacharel em Ciências Contábeis pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Com experiência na área contábil, atua em diversos setores empresariais, oferecendo soluções personalizadas. Também é pós-graduado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), com MBA em Gestão Estratégica e Econômica de Negócios.