Durante muito tempo, as viagens foram vistas como um prêmio depois de meses de trabalho ou um plano restrito às férias anuais. Essa lógica, porém, vem mudando. Dados do Google apontam que muitos brasileiros passaram a buscar viagens voltadas ao equilíbrio emocional e ao bem-estar, enquanto estudos e especialistas indicam que viajar sozinha pode fortalecer a autoconfiança, a autonomia e o desenvolvimento pessoal das mulheres.
Para Daniella Vicuuna, empresária e especialista em inteligência financeira aplicada às viagens, o movimento aparece na prática. Depois de mais de duas décadas viajando pelo mundo e de conhecer 47 países, ela passou a enxergar os roteiros como experiências que vão além do turismo.
“Viajar sozinha nunca foi sobre fugir da rotina. Sempre foi um momento de reencontro comigo mesma.”
“Quando você muda de cenário, desacelera e experimenta outras culturas, também passa a olhar para a própria vida com mais clareza”, afirma Daniella, que já visitou Paris treze vezes e compartilha as viagens em seu perfil no Instagram.

Planejar reduz o medo
Segundo a especialista, muitas mulheres ainda associam uma viagem desacompanhada à necessidade de uma coragem fora do comum. Para ela, o elemento decisivo é outro: planejamento. Conhecer o destino, os deslocamentos, os cuidados com a segurança e preparar o roteiro ajudam a construir confiança aos poucos.
“Autonomia não significa improviso. Significa preparar a viagem, entender o destino, conhecer os deslocamentos, cuidar da segurança e construir confiança aos poucos”, diz.
Entre as pessoas que procuram Daniella para aprender sobre milhas aéreas, economia e organização de viagens, as mulheres representam cerca de 85% dos alunos. A maior parte tem mais de 40 ou 50 anos, incluindo casadas, viúvas e mães que contam com apoio familiar enquanto viajam.
Do receio à prioridade pessoal
Aos 48 anos, Danielle Vogado de Souza passou 12 dias em Paris em um grupo formado apenas por mulheres, organizado por Daniella Vicuuna. Deixar o filho de 7 anos com a família foi um dos desafios da decisão.
“Aquele era o meu momento, hora de priorizar alguns dos meus sonhos.”
Danielle conta que sentiu o coração apertado desde o planejamento até o embarque, também porque o filho gosta de viajar. Mas a experiência trouxe uma sensação de renovação. “Aproveitar uma viagem na companhia de outras mulheres, trocar experiências de vida e também de maternidade me trouxe muitos aprendizados”, relata.
Entre os lugares que desejava conhecer estavam o Arco do Triunfo e a Catedral de Notre Dame. Depois da viagem, ela já planejava uma nova jornada no mesmo ano com parte do grupo.
Viver o destino sem pressa
Para Daniella Vicuuna, a procura inicial por economia costuma revelar um desejo mais profundo. “Muitas mulheres descobrem que não estão comprando apenas uma passagem. Estão comprando liberdade para viver experiências que elas adiaram por anos”, afirma.
Ao organizar grupos de viagem, alguns exclusivos para mulheres, ela propõe roteiros para destinos como Toscana, Leste Europeu e Paris com espaços livres de programação rígida. A ideia é trocar a pressa de cumprir listas por uma relação mais atenta com cada lugar.
“Existe uma diferença enorme entre conhecer um destino e criar uma relação com ele. As lembranças mais importantes raramente acontecem diante de um monumento. Elas surgem quando você se permite caminhar sem pressa, conversar com moradores, entrar em um café sem planejamento ou simplesmente observar a cidade”, diz.
Na avaliação da especialista, as mulheres continuam interessadas em conhecer novos lugares, mas agora buscam também voltar diferentes: tocadas pelo destino escolhido e mais próximas de si mesmas.