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O custo invisível da longevidade que pressiona famílias

O envelhecimento pode exigir mais do que uma reserva para despesas médicas: ele também pode comprometer a renda e o futuro financeiro de quem assume o cuidado dentro da família.

Medicamentos, consultas, exames, plano de saúde, alimentação específica, transporte, adaptações na residência, fisioterapia e cuidadores estão entre os gastos mais evidentes. Mas existe uma conta menos visível: o custo econômico de quem reduz a atividade profissional ou deixa de trabalhar para acompanhar um familiar com algum grau de dependência.

Para Ahmed Sameer El Khatib, professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), a discussão precisa ir além de calcular quanto uma pessoa idosa gasta. A questão envolve quem absorve o custo do cuidado e o que essa pessoa deixa de ganhar, produzir e acumular durante esse período.

“A pergunta economicamente correta não é simplesmente ‘quanto um idoso gasta?’, mas ‘quanto custa cuidar, quem absorve esse custo e quanto essa pessoa deixa de ganhar, produzir e acumular enquanto cuida?’”

O custo invisível da longevidade que pressiona famílias
Foto: Magnific

Quando o cuidado afeta duas gerações

Uma filha que diminui a jornada para acompanhar a mãe pode perder renda, oportunidades profissionais, contribuições previdenciárias e capacidade de formar patrimônio para a própria velhice. O cuidado ainda tem efeitos que não aparecem diretamente na planilha familiar, como perda de sono, preocupação, conflitos e sobrecarga emocional.

O impacto pode ser ainda maior para quem está na faixa dos 50 anos, financiando os estudos dos filhos, pagando a casa, ajudando os pais idosos e tentando construir a própria reserva. Nesse cenário, recursos destinados ao cuidado dos pais podem deixar de ser investidos na aposentadoria ou em outras necessidades da família.

As decisões também carregam afeto, obrigação, reciprocidade, culpa e medo. “Se economizo no cuidado, posso sentir que estou abandonando minha mãe. Se comprometo excessivamente minha aposentadoria, aumento a probabilidade de depender dos meus próprios filhos no futuro”, explica o professor.

Por que o planejamento fica para depois

Embora envelhecer seja um dos eventos mais previsíveis da vida, a preparação financeira costuma ser adiada. Segundo El Khatib, a Psicologia Econômica ajuda a explicar esse comportamento: as pessoas tendem a dar mais peso às recompensas imediatas do que aos benefícios de decisões voltadas para um futuro distante.

Guardar dinheiro hoje para uma possível necessidade de cuidado daqui a décadas parece abstrato, enquanto consumir agora oferece uma recompensa concreta. Pensar na velhice também pode significar encarar doença, perda de autonomia, declínio cognitivo e necessidade de ajuda — temas que muitas pessoas preferem evitar.

Conhecer juros compostos, investimentos e orçamento, portanto, não garante uma mudança de comportamento. Entre saber o que fazer e efetivamente agir existem emoções, vieses, autocontrole, renda, contexto social e percepção de futuro.

Foto: Magnific

Ansiedade pode bloquear decisões

A preocupação com dinheiro pode estimular uma revisão do orçamento, o aumento da poupança ou a reorganização das finanças. O problema surge quando o medo provoca evasão: a pessoa deixa de abrir o aplicativo do banco, consultar a fatura, calcular dívidas, projetar a aposentadoria ou conversar com os filhos sobre o futuro.

Forma-se um ciclo: a ansiedade leva à evitação, a evitação reduz a informação e a sensação de controle, e a falta de controle aumenta a ansiedade. No envelhecimento, esse receio pode ganhar outra dimensão, pois uma perda financeira pode ser percebida como uma perda de autonomia futura.

“Na velhice, perder dinheiro pode ser percebido como perder autonomia futura.”

Para uma pessoa mais jovem, o patrimônio pode representar um imóvel, um investimento ou um negócio. Para uma pessoa idosa, o mesmo valor pode se transformar mentalmente em meses de cuidador, medicamentos, moradia ou a possibilidade de continuar vivendo na própria casa. Assim, a reserva também passa a ser uma reserva de autonomia.

O peso maior sobre as mulheres

Segundo o especialista, as mulheres continuam absorvendo uma parcela desproporcional do trabalho não remunerado de cuidado. Quando uma mulher se afasta do mercado para cuidar de um familiar, o impacto ultrapassa o salário que deixa de receber.

Também entram nessa conta a interrupção da progressão profissional, a perda de capital humano, as contribuições previdenciárias menores, a redução da capacidade de poupança e o patrimônio que deixa de ser acumulado. “Uma decisão de cuidado tomada aos 48 pode reaparecer como vulnerabilidade financeira aos 70”, destaca.

Reconhecer esse valor econômico não reduz a dimensão afetiva do cuidado. “Cuidado pode ser amor, trabalho, responsabilidade, renúncia e sofrimento ao mesmo tempo”, afirma El Khatib.

Patrimônio para preservar escolhas

Para o professor, educação financeira é necessária, mas não resolve sozinha questões como baixa renda, alto custo do cuidado, ausência de serviços e dependência funcional. A preparação para uma vida mais longa, avalia, precisa combinar planejamento, Psicologia Econômica, prevenção em saúde, infraestrutura de cuidado, mercado de trabalho e proteção social.

O desafio não é apenas acumular recursos para a aposentadoria, mas pensar antecipadamente como o patrimônio poderá financiar necessidades diferentes e preservar a capacidade de escolha. “Uma reserva financeira não compra juventude nem elimina a incerteza, mas pode comprar escolhas”, resume.

Em vez de perguntar somente quanto dinheiro será necessário para se aposentar, a proposta é refletir sobre quanto de autonomia se deseja financiar ao envelhecer. “Talvez nossa maior ansiedade financeira na velhice não seja o medo de ficar sem dinheiro. Seja o medo de ficar sem escolha”, finaliza.

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