Ao colocar familiares e profissionais no centro da análise, o pesquisador brasileiro David Amorim defende que envelhecer exige estratégias que também protejam quem cuida.
O envelhecimento da população amplia desafios para famílias, profissionais de saúde e instituições. Nos Estados Unidos, David Amorim pesquisa como fatores sociais e culturais atravessam a experiência de envelhecer e de cuidar, em uma abordagem que vai além das condições clínicas da velhice.
Neurocientista molecular e mestre em Antropologia Médica por Harvard, Amorim é Research Associate do Marcus Institute for Aging Research, ligado à Harvard Medical School, em Boston. Seus estudos se dedicam ao envelhecimento, à demência e ao cuidado, considerando a experiência de pessoas idosas, familiares e profissionais.
“O cuidado transforma a rotina, as relações, as decisões e até a percepção que as famílias têm sobre saúde e qualidade de vida. Ele frequentemente traz consigo riscos seríssimos à saúde do cuidador.”
O pesquisador também busca aprimorar qualitativamente ferramentas como a ICOPE, da Organização Mundial da Saúde, voltada à avaliação da capacidade intrínseca de pessoas idosas. Seu interesse pelo tema se intensificou ao estudar famílias que acompanham pacientes com doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson.

Quando cuidar afeta toda a família
Para Amorim, o diagnóstico e o tratamento não devem concentrar sozinhos a discussão sobre demência e envelhecimento. A vida de quem cuida precisa integrar esse olhar, pois o cuidado pode alterar a rotina, as relações, as decisões e a própria percepção familiar sobre saúde e qualidade de vida.
Ele observa que o cuidado familiar sustenta a operação da medicina, mas permanece invisibilizado e cada vez menos presente no olhar clínico. Por isso, sustenta que os efeitos dessa experiência não podem ser explicados apenas pela biologia: fatores sociais, familiares e culturais também influenciam pacientes e cuidadores.
Foi a partir dessa perspectiva que o pesquisador migrou para a antropologia médica. Sua investigação passou a examinar como relações e contextos em que o cuidado acontece moldam a experiência de quem recebe assistência e de quem está ao redor.
Decisões que moldam a assistência
Durante o mestrado, David Amorim pesquisou a experiência moral de familiares e profissionais responsáveis pelo cuidado de idosos em instituições de longa permanência em Massachusetts. O estudo analisou como responsabilidades, decisões, relações humanas e determinantes estruturais participam da rotina de assistência e afetam a viabilidade do cuidado.
Com dados etnográficos, ele propõe uma nova definição do ato de cuidar, incorporando integralmente dados qualitativos sobre essa experiência. Sua produção acadêmica também aborda aspectos positivos vividos por cuidadores.
Em 2025, um de seus trabalhos foi reconhecido pela American Geriatrics Society, na categoria Ethics & Qualitative Research, e posteriormente publicado no Journal of the American Geriatrics Society. Em colaboração com a Universidade de Hong Kong, ele ainda investigou por que famílias chinesas optam pela alimentação assistida cuidadosa em vez do uso de sonda.
O estudo qualitativo, também publicado na JAGS, aponta a influência das crenças culturais e da disponibilidade prática de apoio à alimentação nas escolhas das famílias.
“Políticas e estratégias de cuidado precisam olhar para a pessoa idosa, sua família e os profissionais de forma integrada, baseando-se em dados quantitativos e qualitativos.”
Estratégias para o Brasil
Enquanto desenvolve sua pesquisa nos Estados Unidos, Amorim pretende aproximar essa experiência do Brasil. O objetivo é trazer técnicas, métricas e estratégias de inovação aplicadas ao cuidado familiar e institucional, contribuindo para uma assistência mais estruturada diante dos desafios do envelhecimento.
Para o pesquisador, discutir longevidade exige a integração entre ciências biológicas e sociais, economia e política. Ele defende que a qualidade dos anos vividos, o propósito de vida, a autonomia, as relações e o cuidado necessário devem orientar o planejamento para uma transformação demográfica que terá efeitos sobre saúde, economia, famílias e organização social.
“Existe uma oportunidade enorme de transformar conhecimento científico em soluções concretas para o Brasil, e é importante que isto aconteça com urgência”, finaliza Amorim.