Dor, insônia e cansaço persistente podem ser o motivo da consulta, mas também podem revelar mudanças emocionais que ainda não foram reconhecidas pelo paciente.
Uma dor de cabeça que não passa, noites mal dormidas, cansaço persistente ou problemas digestivos costumam levar alguém ao consultório. Nem sempre, porém, quem busca atendimento por um sintoma físico imagina que a conversa também pode envolver saúde mental.
Alterações no humor, no comportamento ou na rotina podem não ser percebidas inicialmente como parte do problema. Para o médico de família e comunidade Eduardo Trevizoli Justo, é importante ir além da queixa específica e perguntar como o paciente está se sentindo, como anda o humor, o sono e o cansaço.
“O primeiro passo é deixar o paciente falar.”

O sintoma pode ser a porta de entrada
Depressão e ansiedade nem sempre são identificadas pelo próprio paciente logo no início. Mudanças no sono, perda de interesse por atividades, alterações de apetite e comportamento, além de sintomas físicos, podem surgir antes do reconhecimento de um possível sofrimento emocional.
Nos transtornos de ansiedade, as linhas de cuidado do Ministério da Saúde apontam sintomas físicos sem explicação médica como uma das principais formas de apresentação na Atenção Primária. A escuta, no entanto, não transforma automaticamente tristeza, preocupação ou uma fase difícil em diagnóstico.
É preciso avaliar há quanto tempo os sintomas estão presentes, sua intensidade e o impacto provocado na vida da pessoa. A Organização Mundial da Saúde estima que aproximadamente 332 milhões de pessoas vivam com depressão no mundo e 359 milhões tenham algum transtorno de ansiedade.
Mudanças que merecem novas perguntas
Na Medicina de Família e Comunidade, o acompanhamento ao longo do tempo oferece uma referência importante: como aquela pessoa costumava estar. Dormia bem? Era comunicativa ou reservada? Mantinha uma rotina ativa, trabalhava, encontrava amigos e fazia atividades de que gostava?
Uma pessoa antes comunicativa pode ficar mais calada. Quem saía com frequência pode se isolar ou abandonar interesses. Também podem surgir irritabilidade, queda no rendimento no trabalho, mudanças no apetite e queixas físicas recorrentes.
“Existe uma mudança em relação ao que aquela pessoa fazia antes. É isso que chama a atenção.”
Nenhum desses sinais isoladamente confirma depressão ou ansiedade. O que orienta a avaliação é a mudança em relação ao padrão daquela pessoa, somada ao histórico e ao contexto de vida.
Entre idosos, familiares podem notar primeiro que o pai ou a mãe deixou de comer, sair de casa ou realizar atividades habituais. Além de investigar causas físicas, a consulta pode revelar luto, perdas, solidão, isolamento ou outros fatores ligados ao sofrimento emocional.
Perceber não é diagnosticar
Identificar uma mudança é o início da investigação, não o fim dela. O médico considera sintomas, histórico, condições clínicas, contexto familiar e social e os efeitos daquela situação na vida do paciente.
Quando indicado, instrumentos de rastreamento podem auxiliar nesse processo. O PHQ-9, por exemplo, é recomendado pelo Ministério da Saúde para rastrear sintomas de depressão em pacientes com fatores de risco ou queixas relacionadas ao humor. O resultado não define sozinho um diagnóstico, que depende da avaliação clínica.
O cuidado pode incluir acompanhamento médico, intervenções não farmacológicas, psicoterapia, medicamentos quando indicados e atuação conjunta com outros profissionais. Casos mais complexos podem exigir avaliação psiquiátrica ou acompanhamento compartilhado com outros serviços.
O que acontece fora do consultório
Desemprego, insegurança financeira, conflitos familiares, perdas, violência e isolamento podem aumentar a vulnerabilidade ao sofrimento emocional. A OMS destaca que a depressão resulta da interação entre fatores sociais, psicológicos e biológicos e associa experiências adversas, como desemprego, luto e eventos traumáticos, a maior risco.
“Às vezes, a pessoa está ansiosa porque pode perder o emprego ou porque depende daquele emprego para sustentar a casa. É preciso entender também o que está acontecendo na vida dela”, exemplifica Eduardo Trevizoli Justo.
Por isso, a consulta não se limita ao sintoma que levou o paciente ao consultório. Comportamento, relações, histórico e contexto ajudam a formar um quadro mais amplo. Perceber que algo mudou não significa estabelecer um diagnóstico: significa fazer novas perguntas. Muitas vezes, é dessa pergunta que o cuidado começa.