Embora 54,1% dos brasileiros que fumam ou já fumaram tenham tentado deixar o cigarro, apenas 13,4% relataram acesso a tratamento para cessação nos 12 meses anteriores à pesquisa.
O dado integra a nota técnica sobre tabagismo do Mais Dados Mais Saúde — Percepções da população brasileira sobre fatores de risco para o câncer, inquérito realizado por Umane e Vital Strategies, com apoio do Instituto Devive. A pesquisa ouviu 6.566 brasileiros com 18 anos ou mais em todos os estados e no Distrito Federal, entre 24 de setembro e 31 de outubro de 2025.
Segundo o levantamento, 11,3% da população adulta brasileira fuma atualmente, 18,3% é ex-fumante e 70,3% declarou nunca ter fumado. O reconhecimento de que fumar é um fator de risco para câncer alcança cerca de nove em cada dez brasileiros: 89,6% entre fumantes atuais, 89,8% entre ex-fumantes e 90,8% entre pessoas que nunca fumaram.
“Os dados mostram que há uma parcela importante de fumantes tentando abandonar o cigarro. Isso reforça a oportunidade de ampliar o conhecimento sobre os recursos que já existem e fortalecer seu acesso.”
A declaração é de Luciana Vasconcelos Sardinha, diretora adjunta de Doenças Crônicas Não Transmissíveis da Vital Strategies. Ela afirma que o Brasil construiu políticas de controle do tabaco reconhecidas internacionalmente e conta com estratégias de apoio à cessação no Sistema Único de Saúde.

A lacuna entre a orientação e o tratamento
Entre fumantes e ex-fumantes, 69,4% disseram que um médico ou outro profissional de saúde perguntou se fumavam nos 12 meses anteriores ao inquérito. Já 55,1% afirmaram ter recebido aconselhamento para parar. O acesso a algum tratamento, porém, ficou em 13,4%.
Somente 11,4% buscaram orientação pelo número disponibilizado nas embalagens de cigarros. Luciana cita o Disque Saúde, do SUS, pelo número 136, como um recurso que pode ser mais disseminado para orientar quem deseja abandonar o tabaco.
O fumo passivo também aparece como ponto de atenção. Embora 80% da população o reconheça como fator de risco para câncer, essa percepção é menor entre pessoas de 18 a 24 anos, faixa em que o índice chega a 67,4%. Entre brasileiros de 25 a 59 anos, o reconhecimento é de 84,3%; entre aqueles com 60 anos ou mais, alcança 85,1%.
Cigarros eletrônicos ampliam o alerta
A nota técnica também reúne dados sobre dispositivos eletrônicos para fumar, como os cigarros eletrônicos. Cerca de 14,5% da população brasileira declarou utilizar ou já ter utilizado esses produtos, apesar de sua comercialização e uso serem proibidos no país. Ao mesmo tempo, 86% dos entrevistados reconhecem que eles representam risco para o desenvolvimento de câncer.
No Brasil, a Anvisa proíbe a fabricação, importação, comercialização, distribuição, armazenamento, transporte e propaganda de dispositivos eletrônicos para fumar. Segundo a agência, não há evidências científicas que comprovem alegações de que esses produtos possam ser utilizados para redução de danos.
Quase um quinto dos entrevistados, 18,4%, acredita equivocadamente que os dispositivos podem funcionar como estratégia de redução de danos. A crença é maior entre pessoas de 18 a 24 anos, com 25%, seguida pela faixa de 25 a 59 anos, com 17,9%, e por aqueles com 60 anos ou mais, com 9%.
“Os cigarros eletrônicos criam novos desafios por seu potencial de atrair novos fumantes, sobretudo jovens, que podem não ter consciência de que esses produtos também causam dependência e são prejudiciais à saúde.”
A avaliação é de Evelyn Santos, Gerente de Investimento e Impacto Social na Associação Umane. Para ela, é fundamental proteger os avanços do controle do tabaco no país e evitar que novos produtos ampliem a exposição da população à nicotina e ao tabagismo.
Curiosidade pesa na experimentação
Dados do Covitel 2023, desenvolvido pela Vital Strategies e pela Universidade Federal de Pelotas, a partir da articulação e financiamento da Umane, ajudam a dimensionar as motivações de uso. Entre pessoas que usavam ou já haviam experimentado cigarros eletrônicos, 20,5% citaram curiosidade e 11,6% disseram que o produto estava “na moda”. Apenas 3% afirmaram ter escolhido o dispositivo para parar de fumar o cigarro convencional.
A primeira experiência também se concentra nas idades mais jovens. Entre pessoas que já haviam usado ou utilizavam cigarros eletrônicos, 37,7% experimentaram pela primeira vez entre 18 e 24 anos e 19,2% aos 17 anos ou menos. Juntos, os percentuais indicam que quase seis em cada dez tiveram o primeiro contato antes dos 25 anos.
Na avaliação de Luciana, os dados reforçam a importância de manter a proibição dos produtos e fortalecer sua fiscalização, inclusive em ambientes digitais. A nota técnica também destaca que políticas tributárias capazes de elevar o preço dos cigarros convencionais podem reduzir seu consumo, em meio à implementação da Reforma Tributária e do Imposto Seletivo sobre produtos de tabaco.