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Solidão na velhice é associada a risco 31% maior de demência

O isolamento social e o etarismo podem afetar a saúde mental dos idosos, enquanto a solidão aparece associada a um risco 31% maior de demência.

O alerta ganha força durante o Setembro Amarelo, período dedicado à conscientização sobre a saúde mental e à prevenção do suicídio. Na terceira idade, observar a falta de vínculos sociais, o preconceito relacionado à idade e os sinais de sofrimento emocional é essencial para fortalecer redes de apoio.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de uma em cada quatro pessoas idosas sofre com o isolamento social. A solidão afeta aproximadamente uma em cada dez. A entidade também alerta que o etarismo pode contribuir para o isolamento, a solidão, a perda de qualidade de vida e problemas de saúde mental.

“Envelhecer não deveria significar perder espaço na sociedade. A pessoa continua tendo desejos, capacidade de contribuir, criar relações e participar das decisões que dizem respeito à própria vida.”

Solidão na velhice é associada a risco 31% maior de demência
Foto: Divulgação

Quando a aposentadoria muda o olhar social

Para David Amorim, pesquisador na área de Antropologia Médica e do envelhecimento, discutir a saúde mental na velhice exige analisar como a estrutura social enxerga a pessoa idosa. A perda de reconhecimento, o enfraquecimento dos vínculos e a ausência de um papel social definido podem tornar essa fase mais vulnerável ao isolamento.

“Vivemos em uma sociedade muito utilitária na maneira como trata as pessoas. Quando você trabalha, você é a sua profissão. Quando se aposenta, existe uma tendência de deixar de ser visto como alguém ‘útil’ para a sociedade”, afirma.

Essa perda de reconhecimento pode alterar a forma como a pessoa se percebe e se relaciona com o mundo. Ao deixar de ocupar determinadas funções sociais, ela pode sentir que perdeu espaço na família, no trabalho e na comunidade.

O especialista defende que o sentimento de pertencimento deve continuar presente ao longo de toda a vida. A velhice, segundo ele, não deveria significar o afastamento da sociedade, já que a pessoa idosa mantém desejos, capacidade de contribuir, criar relações e participar das decisões sobre a própria vida.

Solidão e saúde cognitiva

Uma análise publicada em 2024 na Nature Mental Health avaliou dados de mais de 600 mil pessoas e encontrou associação entre solidão e maior risco de demência. O levantamento estimou um aumento de aproximadamente 31% no risco de demência por todas as causas entre pessoas que apresentavam solidão.

Os autores ressaltam, porém, que os dados são observacionais e não permitem estabelecer uma relação direta de causa e efeito. Ainda assim, para David, os resultados reforçam que os vínculos sociais não devem ser tratados como um detalhe da velhice, mas como parte da própria saúde.

“Uma grande mentira contada é que os seres humanos precisam ser independentes. Não existe espécie mais dependente do que o ser humano. Nosso diferencial é justamente saber viver em sociedade e construir laços”, afirma.

Pequenos gestos reforçam o pertencimento

Uma ligação, uma visita ou uma pergunta sincera podem fazer diferença para quem atravessa um período de isolamento. Esses gestos cotidianos funcionam como sinais de pertencimento e reconhecimento.

“A presença cura! Uma ligação, uma visita, uma pergunta sincera de como a pessoa está. São pequenos gestos que mostram que aquela pessoa importa.”

O sofrimento emocional nem sempre aparece de maneira evidente. Pessoas idosas podem esconder que precisam de atenção ou cuidado por causa do estigma relacionado à saúde mental e da ideia de que demonstrar vulnerabilidade representa dependência.

Por isso, mudanças persistentes na rotina, afastamento de atividades que antes despertavam interesse, redução do contato com amigos e familiares e falas relacionadas à inutilidade, à solidão ou à falta de sentido merecem atenção.

Identificar esses sinais e oferecer espaço para escuta e convivência pode ajudar a evitar que o sofrimento emocional passe despercebido. “As interações sociais são importantes para um bom funcionamento do cérebro. Manter vínculos sociais é uma questão de vida saudável no geral”, finaliza David.

O que aponta a revisão sobre etarismo

Uma ampla revisão sistemática encomendada pela OMS analisou 422 estudos realizados em 45 países. O levantamento encontrou associação entre etarismo e piores resultados de saúde em 96% dos trabalhos, incluindo efeitos sobre dimensões físicas, mentais e sociais.

David Amorim é pesquisador brasileiro, mestre em Antropologia Médica por Harvard e Research Associate do Marcus Institute for Aging Research, ligado à Harvard Medical School, em Boston. Atua nas áreas de envelhecimento, demência, cuidado e saúde global.

Em 2025, teve um trabalho reconhecido pela American Geriatrics Society na categoria Ethics & Qualitative Research e posteriormente publicado no Journal of the American Geriatrics Society. No Brasil, também atua como consultor do Ministério da Saúde.

Foto: FreePik

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