Ferramentas de inteligência artificial já ajudam a montar cardápios e analisar pratos, mas não têm condições de substituir a avaliação clínica feita por um nutricionista.
A busca por orientação alimentar mudou com a popularização dos chatbots e de aplicativos capazes de sugerir dietas, calcular nutrientes e organizar refeições em poucos segundos. No Brasil, 57% dos consumidores afirmam que se sentiriam confortáveis em utilizar inteligência artificial generativa para criar planos personalizados de dieta e nutrição, segundo a pesquisa Voz do Consumidor 2025, da PwC, realizada com 1.002 brasileiros.
O tema ganha espaço no entorno do Dia do Nutricionista, celebrado em 31 de agosto, e depois do aumento, em agosto, de casos de pessoas que passaram a seguir orientações geradas por IA. Especialistas alertam que essas recomendações podem desconsiderar condições de saúde, necessidades nutricionais e resultados de exames.
“A inteligência artificial pode organizar informações, reconhecer padrões e facilitar escolhas durante a rotina, mas não substitui o conhecimento do nutricionista.”
A avaliação é de Bruna Makluf, nutricionista, mestre em Saúde e diretora de Nutrição da WeFit. Segundo ela, cabe ao profissional cruzar exames, histórico clínico, medicamentos, comportamento alimentar e objetivos para compreender o que cada pessoa realmente precisa.

O que a inteligência artificial já faz
A inteligência artificial pode reduzir o trabalho de registrar informações e ampliar os dados disponíveis sobre a rotina. Ela pode estruturar horários de alimentação, sugerir preparações, reunir registros e responder dúvidas cotidianas sobre composição e substituições de alimentos.
- Organizar a alimentação: ferramentas podem registrar refeições, sugerir preparações, estruturar horários e reunir informações da rotina.
- Analisar a composição do prato: sistemas conseguem identificar alimentos por imagem e estimar a presença de carboidratos, proteínas, gorduras e outros componentes da refeição.
- Identificar padrões: registros de alimentação, sono e atividade física podem revelar comportamentos que passariam despercebidos entre uma consulta e outra.
- Apoiar escolhas cotidianas: a IA pode explicar a composição dos alimentos, apresentar substituições e responder perguntas durante o dia.
O uso da tecnologia também avança dentro dos serviços de saúde. A TIC Saúde 2025, divulgada em maio pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil e pelo Cetic.br, indicou que 18% dos estabelecimentos de saúde brasileiros utilizavam inteligência artificial. Entre os que adotavam a tecnologia, 76% usavam modelos generativos de linguagem.
O ponto em que a ferramenta não alcança
A limitação aparece quando é preciso interpretar o paciente. Avaliação nutricional, leitura de exames, suplementação, definição de estratégia alimentar e análise de riscos dependem de formação técnica e do conhecimento da história clínica individual.
Uma resposta pode parecer personalizada ao considerar peso, idade e objetivo, mas esses dados representam apenas parte da realidade. Pessoas com características semelhantes podem reagir de formas diferentes à mesma estratégia alimentar, porque sono, metabolismo, saúde intestinal, comportamento alimentar, medicamentos e alterações laboratoriais também interferem na resposta do organismo.
“A IA reúne dados. O nutricionista interpreta o que esses dados significam dentro de uma história clínica.”
Tecnologia para acompanhar, não decidir
Na WeFit, a inteligência artificial integra o acompanhamento nutricional. O aplicativo permite fotografar uma refeição para analisar a composição do prato e indicar possíveis ajustes. A plataforma também reúne receitas, registros e dados da rotina que podem ser considerados pela equipe responsável pelo paciente.
Esse acompanhamento ganha importância em casos de emagrecimento, saúde metabólica, composição corporal e doenças crônicas. A evolução, nessas situações, não é definida apenas pela quantidade de calorias consumidas.
“A inteligência artificial consegue reunir informações em uma velocidade e frequência que seriam difíceis de reproduzir manualmente. Isso pode tornar o acompanhamento mais completo, mas alguém precisa avaliar o que é relevante, identificar riscos e decidir o que deve ou não mudar. A tecnologia amplia o trabalho do nutricionista, não substitui seu conhecimento”, destaca Bruna Makluf.
O novo papel na consulta
Com ferramentas generativas mais presentes na rotina, pacientes chegam às consultas com cardápios, cálculos, dúvidas e recomendações obtidas em aplicativos ou chatbots. Parte do trabalho do nutricionista passa, então, por avaliar esse conteúdo e separar sugestões genéricas de orientações adequadas a cada organismo.
A inteligência artificial pode analisar um prato, organizar registros, sugerir receitas e encontrar padrões. Determinar o que faz sentido para uma pessoa, avaliar riscos e transformar informações em estratégia de saúde continua sendo uma responsabilidade do nutricionista.
