Busy Philipps descobriu um oligodendroglioma de grau 2 sem apresentar sintomas neurológicos evidentes e passou por duas cirurgias em 2026, em um caso que reforça a importância do diagnóstico preciso e do acompanhamento médico.
A atriz americana Busy Philipps, conhecida por trabalhos como “As Branquelas” e “Freaks and Geeks”, revelou ter sido diagnosticada com um tumor cerebral raro. A descoberta ocorreu depois de uma ressonância magnética de corpo inteiro identificar uma lesão no cérebro.
A investigação apontou um oligodendroglioma de grau 2, tipo raro de câncer primário do sistema nervoso central. Segundo a atriz, não havia sinais neurológicos evidentes, como convulsões, antes do diagnóstico.
“Quando falamos que um tumor é de baixo grau, isso não significa que ele seja benigno ou que possa ser ignorado.”
O tumor tinha 2,6 centímetros e foi retirado em cirurgia realizada em 2 de março de 2026. Algumas semanas depois, Philipps teve uma infecção por Staphylococcus na região da incisão e precisou passar por um segundo procedimento.
Ela realiza exames periódicos para monitorar uma possível recidiva. De acordo com sua equipe médica, não houve necessidade de quimioterapia ou radioterapia após a cirurgia.
Por que o diagnóstico vai além da ressonância
O oligodendroglioma integra o grupo dos gliomas, neoplasias originadas nas células da glia, que dão suporte aos neurônios. É uma doença rara, mais comum em adultos, e sua confirmação não depende apenas do que aparece nos exames de imagem.
“Os oligodendrogliomas são tumores primários do sistema nervoso central e apresentam características moleculares muito específicas, fundamentais para confirmar o diagnóstico e também para definir o tratamento e o prognóstico”, explica Flávio Brandão, oncologista da Oncoclínicas.
Pela classificação atual das neoplasias do sistema nervoso central, o diagnóstico requer a identificação de mutação nos genes IDH1 ou IDH2 e da codeleção 1p/19q, alteração que envolve os cromossomos 1 e 19. Por isso, a análise do tecido tumoral retirado em cirurgia ou biópsia, com testes moleculares, é decisiva.
Tumor de baixo grau não é tumor benigno
Os oligodendrogliomas podem ser classificados como grau 2 ou grau 3. No grau 2, o crescimento tende a ser mais lento e o comportamento costuma ser mais favorável do que em outros gliomas, mas a doença ainda pode evoluir ou voltar após o tratamento.
“O oligodendroglioma de grau 2 tem, em geral, uma evolução mais lenta, mas continua exigindo acompanhamento porque existe risco de progressão ou recidiva”, afirma Brandão.
Os sintomas variam conforme a localização e o tamanho da lesão. Convulsões, dor de cabeça, alterações de memória ou pensamento, fraqueza, dificuldades de fala, visão ou equilíbrio estão entre as manifestações mais comuns.
Em alguns casos, porém, a doença permanece silenciosa por um longo período. “A ausência de sintomas não significa necessariamente que não exista um tumor, porque lesões de crescimento lento podem permanecer silenciosas. Por outro lado, sintomas neurológicos novos, persistentes ou progressivos devem ser investigados”, orienta o oncologista.
Cirurgia orienta os próximos passos
A cirurgia costuma ocupar posição central no tratamento, com o objetivo de retirar a maior quantidade possível do tumor sem comprometer funções neurológicas. Após o procedimento, a indicação de radioterapia ou quimioterapia depende de fatores como idade, localização da lesão, extensão da retirada e características moleculares.
“Não existe uma receita única para todos os pacientes. Em alguns casos, principalmente quando a doença de grau 2 é completamente retirada e não há fatores de maior risco, podemos optar inicialmente apenas pelo acompanhamento. Em outras situações, radioterapia e quimioterapia podem ser indicadas”, explica Brandão.
Segundo o oncologista, foi aprovada recentemente no Brasil uma droga-alvo para pacientes que apresentam doença residual após a cirurgia. O vorasidenibe é um inibidor de IDH que pode atrasar a necessidade de radioterapia e quimioterapia.
Ressonância de corpo inteiro não é rotina
O caso de Busy Philipps chama atenção por ter identificado a lesão antes de sintomas importantes. A atriz contou à revista PEOPLE que fez uma ressonância de corpo inteiro por iniciativa própria.
Essa descoberta incidental, porém, não significa que pessoas saudáveis devam fazer ressonância de corpo inteiro para procurar tumores. O American College of Radiology afirma que ainda não há evidências suficientes para recomendar o exame como rastreamento de rotina em pessoas sem sintomas ou fatores de risco específicos.
A ressonância de corpo inteiro, incluindo o exame de crânio, pode ser indicada em pessoas com síndromes genéticas específicas, como a síndrome de Li-Fraumeni. A condição envolve alterações no gene TP53 e aumenta o risco de diferentes neoplasias desde a infância, incluindo gliomas.
“O caso mostra que uma alteração pode eventualmente ser encontrada de forma incidental, mas isso não torna a ressonância de corpo inteiro um exame indicado para toda a população. A decisão de investigar deve considerar os sintomas, os fatores de risco e a história clínica de cada pessoa”, ressalta Brandão.
Mesmo com prognóstico geralmente mais favorável entre os gliomas de baixo grau, o oligodendroglioma exige vigilância periódica após a cirurgia para identificar precocemente sinais de crescimento ou recidiva.
