O cuidado construído na meia-idade pode definir se os anos a mais serão vividos com autonomia, força e capacidade de decidir a própria rotina.
Aos 40 anos, problemas como hipertensão, diabetes, colesterol LDL elevado, triglicérides altos, obesidade, tabagismo e sedentarismo podem não apresentar sinais evidentes. Ainda assim, eles ampliam o risco cardiovascular e podem comprometer a saúde ao longo das décadas.
Adoecer e perder autonomia não são consequências inevitáveis do envelhecimento.
Para o médico geriatra Arnaldo Pinto Guedes de Paiva Neto, a maneira de chegar aos 70 anos pode ser entendida a partir da fábula da formiga e da cigarra. A formiga representa quem se prepara para envelhecer; a cigarra, quem não se prepara e pode depender mais dos outros.

O impacto silencioso do colesterol
O organismo recebe matéria e energia do ambiente, transforma esses elementos e libera calor e resíduos. Nesse funcionamento, o oxigênio usado na produção de energia também pode originar espécies reativas de oxigênio, entre elas os radicais livres. Quando elas ultrapassam as defesas e os mecanismos de reparo, podem contribuir para danos celulares.
Os telômeros, estruturas que protegem as extremidades dos cromossomos, estão entre as partes vulneráveis. Eles tendem a encurtar durante as divisões celulares, e o estresse oxidativo pode acelerar esse processo.
O LDL elevado favorece a aterosclerose, que atinge as artérias e eleva o risco de doença vascular cerebral. Esse quadro pode contribuir para a demência vascular. Na meia-idade, o colesterol LDL elevado também está associado a maior risco futuro de demência por doença de Alzheimer.
Alterações vasculares podem coexistir com o Alzheimer e agravar o comprometimento cognitivo. Por isso, o controle do colesterol aos 40 anos pode repercutir na saúde do cérebro aos 70 anos.
Músculo é reserva para a independência
Outro patrimônio construído antes do envelhecimento é o músculo. O tecido muscular esquelético vai além da estética: participa do metabolismo e atua como reserva de proteínas e aminoácidos.
Durante uma doença ou internação, o organismo utiliza aminoácidos liberados pelo músculo para produzir proteínas de defesa e sustentar a atividade dos leucócitos, os chamados soldados do organismo. Preservar a força muscular ajuda a manter a marcha, o equilíbrio, a capacidade de levantar-se e a independência.
Preparar-se sem adiar a vida
A prevenção na meia-idade inclui não fumar, evitar o excesso de álcool, praticar exercícios aeróbicos e de força, cuidar da alimentação, do sono e da saúde mental. Também envolve tratar perdas auditivas e visuais, manter-se cognitivamente ativo e preservar vínculos sociais.
O aumento da expectativa de vida ocorreu com avanços da medicina e da sociedade, que reduziram mortes precoces por infecções, traumas e doenças. O desafio, porém, é viver esses anos adicionais com autonomia.
Cuidar da saúde aos 40 anos não significa abrir mão do presente em nome do futuro. A proposta é preservar, ao longo do tempo, a independência para viver.
