Hesitação diante de degraus, esbarrões frequentes e perda de estabilidade revelam que o impacto do Alzheimer vai além da memória e amplia o perigo de acidentes domésticos.
O esquecimento de nomes e fatos recentes costuma ser a face mais visível da demência. No entanto, o corpo também emite avisos claros quando o sistema nervoso perde a precisão dos movimentos. Passos mais curtos, busca insistente por apoio nas paredes e insegurança ao mudar de trajeto indicam falhas de orientação que merecem investigação imediata.
De acordo com o Ministério da Saúde, a doença de Alzheimer representa entre 60% e 70% de todos os casos de demência no planeta. No Brasil, o Relatório Nacional sobre a Demência apontou uma prevalência média de 8,5% entre idosos no levantamento divulgado em 2019.
A memória é um aspecto importante, mas não é o único. Quando a pessoa passa a errar a distância de um móvel, evita escadas ou se movimenta com mais insegurança em locais familiares, a família precisa registrar essas mudanças e relatá-las à equipe de saúde.
O alerta vem da fisioterapeuta Dra. Mariana Milazzotto, mestre em Ciências Médicas e especialista em reabilitação funcional. Segundo a profissional, as transformações motoras interferem diretamente na autonomia cotidiana.

O desafio do cérebro em decodificar o espaço
Enxergar com nitidez não garante uma locomoção protegida. O Alzheimer compromete funções visuoespaciais responsáveis por mensurar distâncias, detectar desníveis e posicionar a estrutura corporal no espaço. A dificuldade não decorre de patologias oculares, mas da incapacidade cerebral de traduzir o estímulo visual em uma reação motora adequada.
O perigo se instala aos poucos. A pessoa visualiza o assento, mas calcula mal o espaço e cai ao tentar sentar. Hesita diante do primeiro degrau por não distinguir a profundidade. Em locais com excesso de objetos, perde a noção do percurso e se desorienta.
Essas alterações demandam avaliação médica detalhada. Problemas visuais, uso de fármacos, dores, neuropatias, condições cardiovasculares, depressão e outros quadros neurológicos também desequilibram a marcha e exigem diagnóstico diferencial.

Ambiente adaptado afasta risco de fraturas
Quedas não representam uma etapa obrigatória do envelhecimento. Quando a perda de noção espacial se junta à fraqueza muscular e ao medo de andar, o risco de fraturas e hospitalizações sobe rapidamente. O confinamento e a perda de independência surgem como desfechos desse ciclo.
Pequenos ajustes na moradia cortam perigos:
- Retirada completa de tapetes soltos e fios pelo chão
- Desobstrução de corredores e passagens entre cômodos
- Reforço na iluminação interna
- Aplicação de contraste visual na borda dos degraus
- Organização de objetos e utensílios em locais previsíveis
Fisioterapia desenhada para a rotina diária
A intervenção fisioterapêutica não freia o avanço biológico da doença, mas resguarda as capacidades funcionais. O plano terapêutico combina exercícios de fortalecimento, mobilidade, equilíbrio e treinos de dupla tarefa, como caminhar mantendo o foco em respostas a instruções simples.
A conduta profissional prioriza tarefas reais do dia a dia, como levantar da cadeira sem solavancos, deslocar-se até o banheiro ou circular com segurança pela calçada, respeitando sempre o estágio do paciente.
A conscientização ganha força nacional durante o Setembro Lilás. A mobilização foi formalizada no país pela Lei nº 11.736, de 2008, com o intuito de derrubar preconceitos e dar amparo técnico a pacientes, cuidadores e núcleos familiares.
