Dois estudos de setembro indicam que o consumo elevado de ultraprocessados pode alterar marcadores metabólicos, aumentar risco de aterosclerose e favorecer acúmulo de gordura no fígado antes de qualquer sintoma aparente.
É possível treinar, dormir bem, não sentir dor e ainda assim carregar mudanças internas provocadas pela alimentação. A discussão sobre ultraprocessados, por muito tempo, ficou restrita ao ganho de peso. Agora, pesquisas recentes ampliam o foco para processos silenciosos que afetam o metabolismo, as artérias e o fígado.

Rastros metabólicos antes do diagnóstico
Um estudo publicado em 10 de setembro, com mais de 133 mil participantes do UK Biobank, acompanhou pessoas por cerca de 11 anos. Quem consumia maiores quantidades de ultraprocessados apresentou maior risco de desenvolver aterosclerose. Além disso, foram identificadas alterações em marcadores ligados à inflamação e ao metabolismo das gorduras.
“Alterações metabólicas podem acontecer muito antes de produzirem um sintoma evidente”, afirma o nutrólogo Dr. Arthur Victor de Carvalho.
O ponto central é que o peso corporal deixou de ser o único termômetro de saúde. Mudanças internas podem ocorrer sem que a pessoa perceba no espelho ou na balança.
Fígado gorduroso: silencioso e associado à dieta
Dois dias antes, outra pesquisa colocou o fígado no centro do debate. Uma revisão que reuniu 24 estudos encontrou associação entre maior consumo de ultraprocessados e maior risco de doença hepática gordurosa. Na análise do consumo total, com mais de 250 mil participantes, quem estava entre os maiores consumidores teve risco 26% maior.
A doença hepática gordurosa ocorre quando há acúmulo excessivo de gordura no fígado e está fortemente relacionada a alterações metabólicas, obesidade e diabetes. O problema é que o órgão costuma não dar sinais precoces. Muitas pessoas descobrem a alteração por acaso, em exames de rotina ou ultrassonografias solicitadas por outros motivos.
“Quando existe excesso de gordura visceral, resistência à insulina, alimentação de baixa qualidade e pouca atividade física, existe um ambiente metabólico que precisa ser observado”, diz o médico.

O que preocupa é a base da alimentação
As descobertas não significam que um biscoito isolado vá entupir artérias ou provocar gordura no fígado. Também seria um erro colocar todos os ultraprocessados no mesmo nível. A própria revisão sobre saúde hepática encontrou associações diferentes dependendo do tipo de alimento, com destaque para bebidas açucaradas e carnes processadas.
O risco aumenta quando esses produtos deixam de ser exceção e passam a formar a base da rotina. Refrigerantes, embutidos, salgadinhos, biscoitos recheados, doces industrializados e refeições prontas podem ocupar quase todas as refeições sem que a pessoa perceba o quanto sua dieta mudou. A conveniência da alimentação moderna facilita esse padrão.
Magro não é sinônimo de protegido
Uma das principais mensagens dos novos estudos é que não estar acima do peso não é salvo-conduto. Durante décadas, alimentação ruim e obesidade foram tratadas quase como sinônimos. Hoje, sabe-se que gordura visceral, resistência à insulina, colesterol, triglicérides, pressão arterial, atividade física, sono e histórico familiar também compõem o risco metabólico.
“Saúde não pode ser determinada apenas pela aparência do corpo”, ressalta o Dr. Arthur Victor de Carvalho.
Por isso, a pergunta talvez precise mudar. Em vez de olhar apenas para calorias na embalagem, vale observar quanto daquela alimentação ainda se parece com comida de verdade. Frutas, verduras, legumes, feijão, ovos, carnes e cereais menos processados não precisam desaparecer para dar lugar a uma rotina completamente industrializada.
Serviço
- Estudo UK Biobank: 10 de setembro, mais de 133 mil participantes, acompanhamento de aproximadamente 11 anos.
- Revisão sobre doença hepática gordurosa: 24 estudos, mais de 250 mil participantes na análise de consumo total de ultraprocessados.
- Especialista citado: Dr. Arthur Victor de Carvalho, nutrólogo.
